CAPÍTULO 3 – Primeiro Dia.
Aquele homem aproximou-se da única vela acesa no ambiente, que repousava sobre uma mesa de centro porém alta, compartilhando o espaço com outra xícara de chá e um grosso livro.
A pouca luz clareava seu corpo e rosto. Ele usava um turbante dourado, com o mesmo tom dos bordados de sua camiseta estilo indiana. Era moreno mais escuro que eu, nariz chapoca, beiços protuberantes porém os olhos e as sobrancelhas era finos, delineados como os meus. Tirou a camisa, mas usava um tecido que pendia junto aos seus braços, ao longo do tórax, parecido com as estolas que usam os sacerdotes católicos. Eu não estava entendendo nada ainda. Estava meio pasmo. Era um como sonho, porém vívido, nítido, organoléptico e colorido. Mas eu me lembro que em nada eu sentia dúvidas, ou temores, apesar de algum tipo de espanto, nada me espantava de fato. Era uma sensação muito boa que eu sentia, como se eu tivesse mais alegre e vibrante do que nunca antes.
Em silêncio, o homem estendeu as duas mãos para vela inclinando seu corpo e com este movimento, permitiu-se-me ver que ele usava um cordão com um pingente, um pequeno cristal pendulante.
A cor da chama da vela mudou de amarelo alaranjada para verde azulado. Saltou da vela para suas mãos e com movimentos semelhantes a uma dança oriental a chama azul ia tomando formas geométricas diferentes. Esticou-se como um chicote e em seguida ele fez retornar para a vela, que voltou a ter o mesmo tom amarelo alaranjado do início.
- Gabriel! Você está em Wolnyah! Ele disse!
Isso! Ele disse junto com a voz! Como eu pude me esquecer disso? Desde que eu tinha acordado na ilha que vez ou outra eu ouvia uma voz feminina dizendo: Você está em Wolnyah! Sim! Era isso mesmo! E o interessante é que quando ele disse onde eu estava, a mesma voz falou junto!
Acrescente-se também o fato de que, ao pronunciar meu nome várias outras velas espalhadas pela sala acenderam-se simultaneamente, iluminando tudo e revelando rapidamente muito mais cores, muitas cortinas em todas as paredes e um teto todo decorado, acho que diz em arabesco. E depois se apagaram. Ele fez isso duas vezes. E na terceira vez pronunciou somente o meu nome de forma lenta e enquanto não terminou de dizer as velas permaneceram iluminadas:
- Ga-bri-El... recitou novamente com uma voz suave e prolongada e como eu disse, as velas permeneceram acesas. – Meu amo, seja bem vindo a Wolnyar. O que pulsa em seu coração é uma chama muito mais maravilhosa e poderosa do que estas. O que te perseguiu em sonhos desde sua infância [ Como ele sabia dos meus sonhos de criança? ] eram memórias de um tempo que hoje se te transforma em presente para todos nós. Habitantes, príncipes, reis e sacerdotes da grande terra de Grammet! Me chamo Songhü e te serei por servo, mordomo e também mestre.
Quando ele disse essas palavras, minha mente foi longe! Realmente estava virando realidade. Algo que eu nunca compreendi mas que, ao longo dos tempos, foram se concatenando, os sonhos que eu tinha de repente juntaram-se num quebra-cabeça. E ali estava eu, começando a entender. E agora sim, acabo de me lembrar, passando a duvidar se tudo que estava se encaixando na minha mente seria realmente real.
- Onde? – perguntei.
- Em Wolnyah. Quarto planeta de um dos sóis da constelação de Andrômeda. Nosso planeta se assemelha muito ao seu, antes de ser explorado inescrupulosamente pelos humanos. No começo, seu planeta era puro e os seres humanos se alimentavam mais de energia celestial do que de alimentos. Mas contaminaram-se e perderam a vibração quintessencializada. Tornaram-se agricultores e aprenderam a arte da guerra para terem cada vez mais terras, mais comida, mais festas e mais poder político. Troque suas roupas, vamos dar uma volta.
As peças de roupa que Songhü me deu eram de seda. Calça perolada padrão, uma camiseta larga de manga longa de cor laranja porém sem ter como fechar a parte da frente, deixando o peito e a barriga expostos. Depois ele me ajudou a ajustá-la, juntando as extremidades de baixo por dentro da calça, para mais ou menos fechar um pouco e amarrando com uma fita também laranja. Achei muito belos os bordados em fio amarelo, parecia algo da Tailândia, da china, sei lá, e haviam muitos sóis bordados. Ganhei um calçado muito confortável, revestido por dentro pro uma pele macia como uma pantufa mas por fora era um couro bem grosso, dava para ver pela costura que devia ser bem resistente. Mas fechava nos pés como um sapato de mocacin.
Songhü me mostrou sua casa. Digo, nossa casa, pois eu passei a morar com ele. Era de dois andares. O primeiro tinha uma sala ampla, rodeada por estantes com livros, rolos e pergaminhos. Haviam algumas bandeiras bordadas penduradas e um mapa grande em uma das paredes, cheio de rasuras e marcações em vermelho. Tinha também uma pequena cozinha, separada da sala somente por uma bancada estreita que servia-nos de comedoro, como dizem no espanhol.
O chão era quase todo revestido por uma tapeçaria finamente bordada, que depois ele disse serem feitas de lã de ovelhas e colorida com uma tintura feita de casas de moluscos ferventados em ácido. Havia uma escada em caracol com um pequeno hall no pavimento superior e os dois cômodos, ambos com suíte, somente o meu com a varanda que dava de frente pra rua, dos parapeitos de ferro.
Dentro do meu quarto, pouca coisa, a não ser uma cama, um armário rústico de portas entalhadas e algumas peças de roupa dentro (todas as camisas laranjas porem com bordados diferentes, com exceção de uma só branca com dourado), uma mesa e uma cadeira acolchoada. Um pergaminho em branco e uma caneta de pena estilo medieval com um tinteiro de barro.
O vilarejo em que eu estava ocupava toda a ilha, numa área equivalente a trinta campos de futebol.
Passeando com ele pela ilha de Tamirá (assim se chamava), vi várias casas, armazéns, silos, grandes depósitos, quase todas as ruas são feiras livres com barracas e mercadores, cada qual na frente de sua própria casa, onde comercializavam os produtos. Todas as construções bem parecidas, de um barro esbranquiçado, janelas finas e esguias, altas, portas com abóbadas e sempre uma lona na frente fazendo uma varandinha que também servia como barraca de venda dos produtos que cada família produzia.
As ruas principais eram pavimentadas, as demais eram de barro com algumas calçadas gramadas. Em todas as ruas percebia-se um intrincado sistema de escoamento de água, em todas elas haviam calhas e cortes que rasgavam a rua de um lado a outro, com o intuito de a água das chuvas correrem por ali e não provocarem processos erosivos. Achei bem inteligente. Ah, detalhe: em todas as casas, pelo menos uma janela tinha uma jardineira com flores coloridas ou trepadeiras floridas. Um espetáculo sensorial. Sem falar do cheiro de tempero e comida ou de perfumes e aromáticos que permeavam o ambiente.
Subimos o Monte Mirá, que é por onde cheguei e de onde apresentou-me a ilha. Estávamos à leste. Ao sul havia o Parque de Tamir e à oeste o Porto homônimo, ou seja, também chamado de Tamir e ao norte uma porção mais espessa e alta de muralha, que servia para proteger o vilarejo de ocasionais ondas provocadas pela elevação da maré quando as duas luas de Wolnyah se alinhavam. Nomes parecidos. Mirá, Tamir e Tamirá era o nome da ilha e do vilarejo todo. Lá em cima vi os mesmos quadros entalhados nas paredes, as colunas e a ilhazinha em que aportei naquele lugar misterioso. Naquele momento o canal de rochas já não estava mais tão raso, parecia que a maré tinha subido.
Ah sim, esqueci de dizer que lá o clima era agradável. Sol relativamente quente mas a brisa fresca refrescava bem. O céu estava constantemente límpido, verdadeiro céu de brigadeiro com estranhos tons verdes contrastados por grandes nuvens brancas oceânicas espalhadas pelo horizonte.
Algumas embarcações no mar trouxeram-me a sensação de pertencimento, pois eu amo o mar, amo praia, o sal da água, peixes e principalmente: BARCOS! Songhü disse me que a principal atividade local é a pesca, maricultura e cultivo de pérolas. Sim, eles cultivavam pérolas em ostras gigantes. Uma técnica lá de introduzir uma semente redonda e um ano depois recolhê-la na forma de pérola para fazer colares e tinturas. Também de ostras eles produziam tinturas de diversas cores, bastando controlar a quantidade de ácido ou soda adicionados à fervura.
- Estamos nas Ruínas do antigo Templo do Ar. Cada coluna aqui erigida simboliza a estrutura das construções que o ar está constantemente a construir e destruir, no balé das consciências etéreas. As inscrições nas paredes são orações, pedindo ao Único Deus Altíssimo, Elohim, que nunca nos falte o fôlego da vida, que nossos pensamentos sempre estejam focados nEle. As bandeiras também contém orações e acreditamos que à medida em que os ventos as desfiam perto vai se chegando o tempo de as orações serem atendidas. Já as bandeiras que não se desfiam a gente retira e taca fogo.
- Como faço para ir pra casa? – perguntei.
- A pergunta certa é: Por que eu, digo, você, está aqui? Vou te responder a esta e muitas a outras dúvidas, mas não todas. Por enquanto, basta que você se sinta em casa, até que você seja levado de volta.
- Você disse que estou em outro planeta. Como assim? Cê tá ficando doido? – perguntei já desconfiado de que o louco era eu.
- Como assim? Como assim? Você já viu no seu planeta alguém manipular chamas de velas e elas trocarem de cor? Já viu velas acenderem e apagarem somente ao se recitar um nome? Alguém chama seu nome na porta da sua casa e a lâmpada acende? Ou toca-se algum tipo de buzina automática? Você não está em um mundo material e sim está em um mundo espiritual. E a medida em que você se ambientar, verá coisas que ainda não consegue ver como o templo do ar que está sobre nós e aos teus olhos ainda são invisíveis. Vê as bandeiras?
- Não, respondi. – então, gente só pra explicar. Depois eu vi as bandeiras. São as mesmas que eu descrevo no começo aqui da história, mas tipo: eu só fui vê-las bem depois, bem mais tarde. Entendeu? É por que eu to escrevendo lembrando da história, então eu nem sei como ela vai sair na verdade, mas eu espero conseguir colocar de forma cronológica o que aconteceu, oka?
Então Songhü subiu numa escada que ainda me era invisível e pegou uma haste na qual estava uma bandeirola, cor bege com muitas cosias escritas que eu não consegui decifrar, parece que feitas à mão e em técnica de aquarela. Estava bem desfiada, desfragmentando-se ao toque devido ao tempo, aos ventos, chuvas, sol e intempéries constantes.
De primeira impressão não consegui identificar o que aquelas letras pictógrafas diziam, mas logo se me foi revelado e li um trecho: “Proteja-nos, Senhor, com a tua destra, pois só Tu és escudo e broquel”.
O sol começava a despontar no horizonte. Ficáramos ali por algumas horas conversando, Songhü me contando algumas histórias e a cultura artesã de seu povo.
Quando o sol estava se pondo, foi belo ver os barquinhos com suas velas brancas agora alaranjadas pelo sunset, aportando no Porto. Percebi também que o sol se punha por detrás de longínquas montanhas. Antes de eu perguntar, Songhü me explicou:
- É a terra do reino de Grammer. Eu amo este pôr-do-sol. Vamos.
Meu primeiro dia em Wolnyar foi inesquecível, tudo, de verdade! Todas as cores, plantas, insetos, borboletas infindáveis, flores diferentes, a cor dos peixes, do mar caribenho, o tom esverdeado do céu e todas as casas estilo CTRL C + CTRL V. Como eu gostaria de ir lá novamente. Rezo todos os dias para que isso me aconteça Oh meu Pai! Como era bonito.
Ainda vejo em sonhos, mas quando sonho que eu estou lá logo acordo, para minha tristeza. Fico triste em saber que estou no planeta Terra.
Em casa, meu novo amigo, mordomo como ele gostava de ser chamado, ou então de serviçal, fez um ensopado de um queijo parecido tofu e carne macia, com alguns legumes e cenoura. Muito saboroso, gorduroso, temperado.
Ele disse que eu deveria dormir cedo para descansar e que no dia seguinte teria um presente para mim. Fiquei na varanda uns minutos, observando a cidade a noite, somente com as luzidias janelas esguias
acesas e alguma pouca iluminação à luz de lampião nas ruas. Foi tão bom
