CAPÍTULO 02 – Acordei não sei aonde.


Despertei deitado sobre as conchas calcáreas brancas da mesma praiazinha. Despertei assustado, me apalpando, vendo se estava bem, se estava vivo. Sentia algumas dores nas costas, meus braços barriga e pernas estavam todos com vários pequenos cortes, possivelmente feitos pelos sururus na pedra.

Estava com fome e sede. Levantei-me. Minha blusa acordou meio rasgada, não achei meus chinelos nem meu boné. Subi a pedra que ladeava e escondia a pequena praia. Acho que você não vai acreditar, tanto quanto eu também não acreditei. 

Não vi Vila Velha, não vi prédio algum. Olhei para trás, eu estava na ilha de Pituã, mas onde estava Vila Velha, eu não sei! Então onde eu estava? A impressão era de que eu havia parado atrás do Morro do Moreno, pois a minha frente havia uma montanha de igual tamanho, mas atrás (ou na frente) dele não há ilhotas. 

Entendi nada. Fazia a mínima ideia do que estava acontecendo.

O mar que me circundava era milhões de vezes mais cristalino e transparente, de um azul celeste tão caribenho, e de uma areia tão branca que até cegava. Constatei, por fim, que realmente eu não estava na ilha de Pituã, apesar da verossímil semelhança. 

O morro à minha frente tinha uma construção em ruínas em cima dele, com algumas colunas e paredes brancas destruídas e derrubadas. Eu precisava voltar para casa, então entrei no mar para nadar em direção ao Morro, com a intenção de lá de cima observar e tentar achar algum povoado para eu pedir ajuda.

Entre a ilha que eu estava e o morro havia como que um caminho mais alto de rochas e corais, como uma ligação. Com o balanço das ondas, ora o coral brotava, ora era submerso.

 Até aí, tranquilo, mas as coisas esquisitas começaram a acontecer quando, à medida em que eu caminhava tortuosamente sobre as rochas, as ondas vinham e não inundavam a parte em que eu estava pisando, era como se formasse uma cunha que impedia a água de tocar meus pés.

 E assim o caminho foi se abrindo a minha frente e, de pouco em pouco, devido à acidentalidade do substrato, fui caminhando.

Chegando aos pés do morro, tive de escalar umas rochas altas de uns 3 a 4 metros de altura, até chegar ao ponto em que se iniciava a mata. Temi pisar em espinhos, encostar em urtiga ou pinão. 

Mas logo fui subindo, atravessando aquela mata fechada, mas cheia de cipós como cortinas a desvencilhar e folhas e protuberantes raízes ao chão.

Comecei a gritar: “SOCORRO! E AÊ! OLÁ! E AÊ?” Mas não ouvi resposta alguma. Encontrei um trilha e logo a frente uma escada que subia em zigue-zague, que foi se tornando cada vez mais íngreme e os degraus cada vez mais altos, era feita de pedras arredondadas, esverdeadas por líquens e musgos.

Cheguei à construção de paredes brancas, largas, e grandes colunas caídas. Percebi que eram feitas com conchas, e haviam fitas amareladas  tremulando ao sabor do vento. Entrei. 


Realmente estava abandonada. Muitas telhas no chão, os pisos eram de ladrilhos quadrados todos pintados com rosas dos ventos, azuis como os antigos azulejos portugueses.

 Gritei novamente por socorro, perguntei se tinha alguém por lá. Ninguém me respondeu. Andei pela construção, observando as pinturas ricamente detalhadas nas paredes, moldadas em alto relevo, muito bonitos os entalhes.

Haviam muitos desenhos de homens com roupas parecidas com as de árabes ou beduínos do deserto, igual passa nos documentários da Discovery Channel, montados em Dromedários e Camelos. 

Outras bandeirolas amarelas, douradas e brancas flamulavam no alto das colunas que permaneciam de pé.

 Cheguei a um peitoral e lá de cima pude ver que eu estava em outra ilha, grande, densamente povoada e cercada com muralhas, tipo um forte.



Na hora pensei: UAU! Que lugar é este? Será uma base militar do exército? Mas ainda assim, dava para reparar que o estilo arquitetônico era bem diferente do colonial brasileiro.

 A maioria das casas não tinham telhas, se assemelhavam a torres e dava para perceber que suas janelas eram estreitas e altas, e não largas e espaçosas como as que temos no Brasil. Continuei não entendendo.

Achei uma outra trilha, também de pedras, ladeada por corrimões de bambu, aparentemente tão abandonado quanto o que me levou lá para cima.

Enquanto eu descia, pude reparar flores bem diferentes e coloridas, como girassóis, porem em diversos tons de laranja, lilás, amarelo também, espalhadas pelo mato. Vi umas aves de igual ou mais perfeitamente coloridos, de cantos e assobios nunca ouvido antes. Pensei: “devo estar na África, ou na América Central ou na Austrália, não sei! Será que algum pescador me pegou e levou para aquele lugar?!

Logo cheguei às primeiras casas e confirmei o que lá de cima tinha percebido: a arquitetura delas era realmente diferente. Eram quadradas, com janelas estreitas, portas baixas e na maioria delas havia como que uma varanda cuja cobertura era de tecido colorido, ou em tom amarronzado ou vermelho, laranja.


Pessoas passeavam nas ruas, também com roupas diferentes, parecia um cetim brilhoso, e as camisas variando nas cores azul ciano, verde limão e amarelão. Haviam muitos animais também.

 Galinhas, porcos, bodes, ovelhas, jumentos, cavalos, bois e vacas transitavam pelas ruas, alguns destes de maior porte puxando carroças cheias de produtos

A medida em que fui adentrando no vilarejo ou cidade, não sabia como discernir, fui percebendo que as pessoas me olhavam diferente até que eu entrei em uma feira livre. Mas o idioma das pessoas era diferente, tudo era diferente naquele lugar. 

Algumas frutas eu reconheci, mas outras não. Pareciam mangas, mas eram roxas com linhas lilás e pontos azuis, um trem de doido. Mas com fome, parei em uma das barracas e pedi comida. Mas não entenderam o que eu dizia. 

Acenei então com a mão na boca como quem diz “estou com fome e sede”. O senhor da barraca, baixo, de pele branca avermelhada de sol, barrigão, me deu uma bacia com frutas e um cantil de couro com água. Fui beber, era água de Côco! Oh Glória! Que delicia. Entre as frutas só reconheci a banana e o pêssego. 

Tinha uma outra de casca dura, que o senhor abriu para mim e por dentro era muito parecido com cacau. Vinha um pendão de sementes com uma “carne” amarronzada, um sabor meio de graviola com laranja, um trem de doido. Dá pra explicar muito não!

Ele colocou um banquinho encostado na parede, dentro de sua barraca de frutas e verduras e me indicou que eu sentasse ali para comer. Ele olhava para mim, para minhas roupas... cochichou alguma coisa com a mulher que estava junto dele.

 Depois eu os encontrei novamente e eles são um casal, mas que não tinham filhos. Ela veio ate mim, me perguntou algo, que eu não entendi. Então ela trouxe a mão ao peito e disse: Tarsila. Encostou no peito do esposo e disse: Abreu. E encostou no meu peito e acenou com as mãos perguntando meu nome. Respondi com o mesmo gesto: Gabriel.

Ela apalpou minhas mãos, viu meu corpo todo lenhado de mini cortes, apertou meus braços, pernas, olhou-me bem nos olhos, como quem procura encontrar alguma coisa lá dentro, ou como um médico olha para saber se há indício de anemia. Então falou mais algumas coisas com seu esposo que eu também não entendi. Não era inglês, nem espanhol, nem francês, nem italiano, nem parecido com chinês. Terminei de comer, agradeci e continuei a caminhar e explorar aquele vilarejo.

De repente um clarão no céu como quando alguém tira fotos e uma grande buzina soou. As pessoas rapidamente ficaram alvoroçadas e do nada começou a chover. O tempo se fechou, escureceu rapidamente e então a chuva caiu grossa como uma chuva tropical. 

As pessoas recolheram rapidamente seus pertences, entrando cada qual para sua casa. E assim fui caminhando sozinho, e ensopado, por aquelas ruas. Até os toldos de tecido recolheram, então não tive outra solução a não ser tomar chuva.

Bateu uma tristeza e algumas lágrimas rolaram de meus olhos. Eu estava perdido, em um lugar totalmente desconhecido, sozinho. As ruas e as casas eram todas parecidas, tive a impressão de estar andando em círculos. Praticamente a única coisa que diferenciava uma casa de outra era a cor do contorno das janelas esguias.


Andando, vagando sem saber por onde ir, clamei em alta voz: “Olá! Alguém aí? Socorro! Me ajudem!.. Oá!... Olá?...” E um pouco mais a frente uma porta se abriu. Era uma casa um pouco maior que as demais, com uma fachada larga, uma grande varanda acima cujo parapeito era tipo de ferro negro, os contornos das janelas era entalhado e o muro dela todo também, entalhado.


Um homem de pele morena, mais ou menos da minha altura, cerca de 1,70m, usando turbante, a mesma calça de cetim perolado e vestindo uma blusa branca com bordados em dourado gesticulou, convidando-me a entrar. Certamente, aceitei.


Entrei em uma sala escura, forrada por tapetes coloridos. As janelas esparsas permitiam-me perceber que era grande e ampla, com armários, mesas e muitos livros espalhados. Meu anfitrião fechou a porta atrás de nós e a sala tornou-se mais escura.


- Sente-se. Disse o homem, falando meu idioma e indicando um sofá almofadado que de tão macio nele afundei. Perguntou-me se eu estava bem, ausentou-se rapidamente da sala subindo por uma escada em caracol e retornou trazendo uma toalha e uma muda de roupas secas. Preparou-me um chá bem quente e forte de anis estrelado com paus de canela.


Ali estava começando a história mais linda da minha vida. As vezes até eu duvido, mas não... não poderia morrer sem deixa-la registrada. Eu, um rapaz comum. Digo, nem tão comum, tenho poucos amigos, sempre fui meio solitário, mais dado a passar horas brincando de lego e lendo enciclopédias. Tudo isso aconteceu e tinha 17 anos. Hoje estou com 34! Então, bota tempo nisso, mas eu ainda me lembro de bastante coisa. E depois disso a minha vida nunca mais foi a mesma.