CAPÍTULO 04 – Segundo Dia. Iniciação Yalhínica.


Acordei ao som da cítara. Um rústico instrumento de cordas, uma mistura de harpa com violão. Arrumei a cama e fui até a varanda. O sol estava acabando de nos iluminar com seus primeiros raios e já haviam pessoas nas ruas abrindo suas respectivas tendas.


Não pude ver o mar de manhã, pois uma neblina espessa tomava conta da ilha. Só lá pras 9:00 da manhã é que a neblina se dissipava e da varanda eu podia contemplar o mar e seus barquinhos coloridos em diversos tons de azul, verde, roxo e amarelo. Depois fiquei sabendo que cada cor de barco significava um tipo de produto marinho que era explorado.


Tomamos chá de frutas vermelhas, comi uns biscoitos caseiros com geleia de damasco, fruta abundante nas terras do Reino de Grammer e também na ilha.


TOC, TOC, TOC. Bateram na porta. Eram dois anciãos que vieram ao encontro de Songhü. Ao me verem, seus olhos se encheram de lágrimas. Se aproximaram, se apresentaram e me abraçando disseram:


- Hoje nossa esperança se fez viva. Chegou nosso anjo, enviado do Senhor, para nos ajudar a retirar todo o mal e as trevas que nos aflige com diversas pestes. És tu, Gabriel? (desde então passei a entender tudo que as pessoas me falavam e a ler tudo que era coisa escrita).


- Sim, sou eu, Gabriel.


- Viva Jah! Viva Jah! E cadê o seu cristal? Perguntou um dos senhores.


- Eu ainda não dei. Mas que bom que chegaram para testemunhar seu revestimento. Disse Songhü. E Glorificavam a Deus, a J’ah, a quem reverenciadamente proclamavam.


Eles recolheram os tapetes que revestiam o chão da sala, desnudando o assoalho de madeira escura. Afastaram alguns móveis, fecharam as cortinas das janelas e acenderam incensos.


Prostraram-se de joelhos, tirando de seus bornais muitas pétalas de flor e as depositavam em uma bacia com água morna, junto com outras folhas e pós aromáticos, dentro da qual colocaram meus pés. Clamavam:


- Oh Deus Altíssimo, tendes visto a aflição do teu povo. Tendes visto continuamente as preces e orações que constantemente fazemos perante Ti. Saiba-se hoje, responda-nos, ó Altíssimo e delivre-nos. Dá-nos livramento e resposta de Salvação.


Então Songhü veio em minha direção, eu estava sentado em uma almofada alta sobre o único tapete que estava estendido no chão, com os pés dentro da água morna, tapete este muito bonito também, era uma grande flor de lótus aberta, com pétalas intercaladas de laranja e lilás. Segurava em sua mão um cordão com um pingente de cristal, semelhante ao que também utilizava. Não só ele vale a pena dizer que todas as pessoas em Wolnyah usavam um colar como este, de um mineral chamado Yalhina.


Ao aproximar o cristal de mim, taças e copos começaram a vibrar e tilintar do choque uns nos outros. As velas que estavam espalhadas pela sala começaram a se acender, uma a uma, de forma aleatória e desorganizada. E então o cristão se ativou na minha presença.


Brilhando, luzes roxas, lilás, vermelhas, amarelas e laranjas saltavam dele e percorriam o meu corpo. Vi que uma fumaça, um vapor denso e espesso que subia da bacia em que meus pés estavam, cuja água agora fervilhava, então Songhü passou o fecho por detrás do meu pescoço, depositando-o em meu pescoço. Senti com uma agulhada, um peso, algo estrnho na mente e fui tomado por visões. Muitas visões. O tilintar das taças juntou-se a um coro celestial. E eu vi vários tronos e olhos e bocas e asas e cantavam:


- Aleluia! Salvação! Glória, Honra e Poder! Pertencem a Yah, nosso Deus Altíssimo, por que seus desígnios são verdadeiros, e determinou a queda do império das trevas e logo vem com o teu Glorio Reino de Luz! Brilhe em ti! Brilhe em Ti, Ó Gabriel, nós te abençoamos com todas as bendiciones.


E eu me senti tremendamente bem. Nas visões eu via terras, reinos, vi cavaleiros, carruagens, espadas, arcos e navios. Vi pessoas gemendo com fortes dores, pessoas sofrendo com pestes e fome. Vi também uma esfera negra e uma flecha. Ouvi sinos, tambores, senti paz, aflição vi confrontos e vi batalhas colossais.


Levantei-me, impelido por aquela força e através de harmoniosos passos de dança, as luzes, vapores e fumaças dançaram comigo. Houve um leve tremor de terra, livros caíram, copos, taças e jarros também. Fui tomado por uma incrível vontade de desfrutar em um só segundo todo o poder que eu recebia, mas temi, senti medo e instantaneamente as luzes sumiram, junto com a fumaça e os vapores.


Olhei para os lados, luminárias penduradas no teto ainda balançavam. Uma alta e sonora buzina ecoou e todos saíram às pressas de suas casas, lotando as ruas.


Respirei fundo, recobrei meus pensamentos e, ainda meio atemorizado com o que realmente estava me acontecendo, pensei: que parada doida, mano! Na moral! Fiquei extasiado, sentei-me e comecei a chorar. A chorar muito, muito mesmo, de gritar alto e descontroladamente. Pois eu sabia que aquilo um dia iria acontecer. Tantos sonhos tive, ao longo de toda minha infância e adolescência, agora faziam sentido. E Eu? Logo EU? Logo eu? EU? Escolhido? Oh céus!


- Meu amo... – disse-me um dos anciçãos – Você traz dentro de si a chama sagrada. O Fogo Divino, que ninguém mais em toda Wolnyah possui! Nem há milênios possuiu. Fazem cinco gerações que estávamos em absoluta paz e a Chama Sagrada havia retornado para os altares celestes. Agora está em ti. Estamos na sexta geração e tu inaugurarás a sétima geração. Precisamos de você para restaurar a paz em Wolnyah. Vê meu cristal? Brilha! Olhe como brilha de azul! Sou um sacerdote das águas. Sou responsável por fazer orações, devoções e oblações para que nossos rios e mares e chuvas continuem saudáveis para manter nosso povo. Suaruna é meu nome. Aghuito é alto-sacerdote da terra – disse apontando para o outro ancião, já calvo, baixo e de coluna arqueada. Veja como o cristal de Yalhina dele brilha de verde. Ele é responsável pelas nossas terras, manutenção dos ecossistemas florestais, produtividade do campo e saúde dos alimentos. Songhü, seu mestre, é alto-sacerdote dos ares. Juntos formamos o clero alto-sacerdotal e lideramos outros oradores e intercessores a manterem a harmonia de nosso mundo. Mas o elemento fogo é externo, ele só desce ao nosso planeta para reparar uma quebra entre os três elementos fundamentais. Você é o único em toda Wolnyah que domina o quarto elemento, o fogo.


- Meu amo – disse agora Aghuito, o Alto-Sacerdote da Terra – o elemento fogo é muito poderoso. Quem domina o fogo também domina, automaticamente todos os outros demais. Sempre que combinados, fogo e mais um elemento, coisas grandes e poderosas acontecem. Nascemos em uma época em que não vimos com nossos olhos um manipulador do fogo, mas sabemos pelos manuscritos e registros históricos. Deus ilumine Gabriel, Deus, Yah, salve Wolnyah. Receba nossos presentes.


E assim recebi frascos de vidro contendo: um com areia, outro com água mineral e outro com grãos de goma aromática, para queimar e oferecer como incenso. Tudo vibralizado, quintessencializado. Cintas de couro para as mãos, formando luvas, um par de botinas de couro, parecidos com o mocacim que Songhü havia me dado porém de cano alto e um cinto multicompartimentado para transportar ferramentas, poções, pergaminhos. Eu fiquei muito feliz.


Muito feliz mesmo. Com aqueles presentes, eu estava acreditando mais naquela história. Comecei a ser cheio de uma convicção do tipo: “Seja lá onde estas trevas e este mal estiverem, vamos lá derrota-los!”


Depois disso os três Alto-Sacerdotes começaram a me treinar. Contaram-me outras histórias, tradições e folclore popular. Explicaram-me que Wolnyar é um mundo espiritual, onde as intenções do coração são tão verdadeiras quanto as palavras e que as palavras são mais poderosas que ações. Um planeta em que os princípios da Fé e do Amor Incondicional são transformadores e podem muitas coisas. Todas as pessoas são sacerdotes, em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de tempo em que se dedicam, todas são responsáveis pela manutenção da paz, da ordem e da harmonia entre os 3 elementos. Em Wolnyar não existe comércio propriamente dito. Cada família produz algum tipo de produto. Há pomares espalhados, hortas difundidas, colônias e mais colônias de abelhas polinizadoras. Muitos criam ovelhas, cabras, jumentos, donde tiram lã, leite, fabricam queijo, carnes e outros derivados. Há quem trabalhe em minas de cobre e ferro nas terras de Grammer, outros na prospecção de ouro, prata e pedras preciosas. Outros trabalham estes metais que são explorados transformando-os em utensílios e acessórios, ou ferramentas. Em Wolnyar não havia guerras há mais de 1.800 anos.


Havia até antes da cisão, somente um continente, chamado de Uinika. Há cerca de quinze anos, entretanto, muitas coisas mudaram e o reino unificado se dividiu em dois continentes, chamados reinos. Reino de Grammer, onde nós estávamos e o reino de Shawn, dominado pelas trevas. Ninguém de Grammer ousou adentrar as densas e espessas brumas que circundavam o continente, nem tinham informações sobre o local, apenas um mapa, que também não era exato.


Antes da divisão dos continentes, não haviam catástrofes naturais, não haviam terremotos, nem furacões, mas desde que o mal entrou no planeta de Wolnyah que alguns desastres estavam ocorrendo, cada ano com mais intensidade e mais calamitosos.


O continente de Shawn rapidamente se afastou, sumindo por trás das cortinas de neblinas oceânicas. E como eu disse, ninguém nunca entrou para saber como estavam as coisas por lá.


Em nossos treinamentos íamos ou para o parque, ou para o porto ou para o monte, sempre pela manhã. Inciávamos sempre à luz dos primeiros raios solares, com uma prece e jejum prolongado. Este se iniciava antes do pôr-do-sol de um dia e seguia até o meio-dia do dia seguinte, sem água ou comida.


Fazíamos meditações, entoávamos cânticos, rezávamos preces. Buscávamos que a Luz Divina irradiasse em nossos corações despertando em nós os dons que se nos haviam sido confiados.


Os três mestres possuíam poderes sobrenaturais sobre cada elemento e partícula de matéria. Aliás, poderes na verdade naturais, bastando se dedicar a desenvolvê-los. Lá era comum, era normal que as pessoas tivessem experiências com as consciências divinas e com os habitantes dos três reinos elementares fundamentais: terra, água e ar. O fogo não era um elemento dominável, não haviam sacerdotes do fogo, pois era como o sol, externo e afastado do planeta. O fogo é um elemento não natural.


Com seus poderes, os mestres podiam manipular a matéria, fazendo com que rochas se brotassem rapidamente do solo, núvens, chuvas, trovoadas, raios, trovões, ventanias! Eram verdadeiros construtores do clima e condições favoráveis ao plantio. Estavam buscando despertar em mim a capacidade de também manipular estes elementos e forças da natureza.


Devo dizer e reconhecer que não foi muito difícil manipular os elementos pois devido aos sonhos que eu tinha quando criança, sempre brinquei de mago!


Mas a primeira coisa que eu precisaria dominar era a mim mesmo. Dominar minhas emoções, sentimentos, pensamentos, intenções, desejos e frustrações. Deveria liberar perdão a todas as pessoas que de alguma forma me magoaram, deveria pedir perdão, ainda que estando afastado delas, às pessoas que prejudiquei, pedir perdão às dimensões do espaço-tempo por ter estado em lugares errados e não ter estado no local certo na hora certa.


Pedir misericórdia no tempo favorável. Precisei anular a mim mesmo, principalmente através dos jejuns e preces que, com o tempo, já não me eram mais um fardo, e sim fortalecimento. Cada dia mais forte, cada dia mais pleno, cada dia os elementos foram me obedecendo com mais exatidão e meus poderes rapidamente se desenvolveram.


Precisei correr, nadar, fazer exercícios de respiração, erguer minhas mãos, adorar ao Deus Criador Yah, ou Jah, dependendo de como você quer invoca-lo. Diz-se Jah quando você o vê como um Pai, antropomorfizado, com sentimentos e emoções humanas, que ama, que sente, que sofre, que corrige ao filho em um instante e no segundo o afaga. Diz-se Yah quando você o vê como o Todo-Poderoso, assim como um Sol, criador, emissor de toda energia cósmica, de toda a vida, em todo a sua Glória e Esplendor.


Precisei receber minha missão, declarando em alta voz que eu aceitava tudo que estava determinado por Deus ao meu favor e que eu aceitava ajuda e instrução para remir o tempo e ter sabedoria.


Nunca estive tão sereno em toda a minha vida. Ali deveria ser algum lugar no mundo espiritual, por que não é possível que eu, um rapaz tão impulsivo, tão compulsivo, tão estressadinho e imediatista não tivesse relutado ou sequer questionado, apesar de ter feito muitas perguntas, sempre aceitei minha missão.


Por outro lado, lembro-me dos sonhos que eu tive na infância, sempre os tive. Desde que eu me entendo por gente, que eu já sonhava com tudo aquilo que estava acontecendo e de alguma forma já sabia de coisas que iriam acontecer, só o final derradeiro de como seria a batalha do bem contra o mal é que eu não sabia e eu viva tentando pela manipulação da energia elemental descobrir como eu aniquilaria o mal, a quem eu deveria matar.


Fossem bons ou na forma de pesadelos, muitos dos sonhos apontavam para este lugar e isto me trazia paz. Agora entendo por que sempre fui fascinado pela ilha de Pituã, aquele lugar sempre me soou mágico. Lembrei-me agora de que esta mesma sensação é a que eu sinto na Igreja dos Três Reis Magos em Nova Almeida- Serra/ES. Nossa aquele lugar é especial, mel dels! Que vista maravilhosa! Enfim, eu deveria #mesmo ter sido escolhido ou chamado, por que eu me sentia em muita paz, com muita força e coragem, fé, esperança e doçura no falar. Eram princípios que eles me ensinavam.


Passavam mais tempo em horas falando comigo sobre vícios e virtudes, sobre a diferença do ímpio para o justo e também sobre as grandiosidades de Deus do que fazendo exercícios e treinamentos “militares”. Para eles, domar os meus pensamentos e intenções era muito mais importante do que manifestar poder, pois o poder sem amor é opressor. Com amor o poder é libertador. Tudo foi muito bom. Até hoje eu desfruto uma verdadeira calma na alma só pelas coisas que eu aprendi lá em Wolnyar.


Estávamos na segunda semana de treino. Foi ficando cada vez mais comum eu ter vislumbres de luz, ouvir vozes e sussurros celestiais, cores e tons de arco-íris espalhados por aí. Estava no monte Mirá, no templo do ar, quando consegui fazer minha primeira bola de fogo. Ela era linda, límpida, cristalina, cintilante. Ela parecia um portal para o infinito e dentro dela eu via muitas portas dentro de outras portas, infinitamente.


Em alguns dos exercícios de respiração aproximei uma mão da outra, como de costume. Eu senti mais que arrepios, senti mais que formigamento e senti um calor muito maravilhoso quando, ainda de olhos fechados, eu conseguia ver a bola de energia entre minhas mãos. Mas tipo um medo me sobressaltou, eu me desconcentrei e ela se desfez.


Estamos Songhü e eu. Ele não viu, muito embora tenha sentido e percebido no meu olhar que algo tinha acontecido.


A medida em que os dias passavam, eu fui esquecendo de contar. Fui conhecendo algumas pessoas na vila. Elas sentiam algo especial quando eu passava. Algo além do intenso brilho que seus cristais emitiam quando eu ia me aproximando. Alguns até levitavam em minha direção como se eu fosse um grande ímã e seus pingentes porcas de ferro.


Logo a notícia se espalhou e eu virei um cara popular. Todos sorriam ao me ver e me falavam da Esperança que tinham em ver a comunidade unida e alegre à uma só voz: a esperança nasceu!


Disseram-me que haviam pessoas doentes nas terras de Grammet, e que eu deveria me comportar bem e ser muito responsável. Essas mensagens meio que me bagunçavam todo por dentro, meio que me constrangiam, consternavam-me, emocionavam e também me atemorizavam.


As pessoas perguntavam-me quando eu ia viajar e me traziam presentes. Ganhei um arco, flechas, adaga, outro par de botas, roupas, um par de brincos e um piercing para o nariz. Uma sineta de bronze para usar em orações. E pergaminhos que se eu tiver oportunidade, escreverei o que neles continha.


Eu ia me acostumando com a ideia de viajar estava cada dia mais confiante nisso. Não poderia derrotar o mal de Wolnyar sem sair daquela ilha, poderia?