CAPÍTULO 16 – 14 de Shalom


No terceiro dia os portões se abriram. Uma mulher de estatura média, até meio gordinha em relação aos magérrimos “zumbis”, cabelos loiros e crespos, olhos escuros como o breu apareceu e perguntou:


- O que vocês querem? Vieram importunar meus dias de sofrimento e solidão?


- Dammarka, é você? – perguntou Songhü.


- Songhü sua voz continua a mesma desde que me condenaste.


- Os céus te condenaram não nós. Onde está Yanko? Viemos prendê-lo!


- Prender Yanko? Hahaha – gargalhou bem alto. Como fará isto, se ele é um Yahleroi? O único que manipula o fogo em todo reino de Shawn? Só me restou ele. Ele cuida de mim. Há quase uma lua que não o vejo, não sei de seu paradeiro. Procurem-no pelo reino!


- Não! Queremos que ele se entregue!


- Pra quê? Para condená-lo como fizeram comigo? Qual a pior condenação que a minha e a dele? Eu não tenho marido, meu filho está morto e ele não tem mãe! Só temos um ao outro.


- Yanko está interferindo em Grammer, tirando nossa paz!


- Sua paz? E nós, como ficamos? Voces mesmo viram: não há água limpa, sem solos férteis, meu castelo está cheio de aranhas, traças e escorpiões. Minha condenação é tão grande que nenhum deles tira minha vida nem veneno algum faz efeito em mim. Para nós não há consolo. Há muito que na terra da aflição morreu esperança! Mas o que é isto que eu vejo vestido de luz? Vocês trouxeram um anjo? Hahahah – gragalhou novamente – Que anjo lindo e maravilhoso é este?


Ao me ver, Dammarka, deixou que uma lágrima escorresse do seu olho. Completou:


- Faz anos que eu não vejo um anjo. Vieste atormentar-me ou trazer-me salvação?


- Dammarka – interpelou Songhü – tão somente arrependa-se, peça perdão a todo mal que você cometeu! – E trovões foram ouvidos nos céus – Veja a confirmação dos trovões. Voce pecou e recebeu a condenação do seu erro. Mas esta maldição precisa acabar. Todos já viram o que o mal é capaz de fazer e como a cobiça e o desatino podem perverter uma pessoa. Dammarka, arrepende-te!


- AAAAAAH! – Gritou em alta voz – AAAHH! – lamentou – Quem me dera houvesse salvação, para mim não há salvação! Yahleroi! Yahleroi!!!


De repente uma coluna de fogo desceu dos céus sóbrios e nublados e uma grande bola negra apareceu. Ouvimos uma voz grave e metálica dizer:


- Outro Yahleroi? É você mesmo, que está aqui, invadindo meu reino e ameaçando meu reinado? Eu não vou me entregar sem antes lutar!


E a bola negra veio voando em minha direção e ei voei contra ela, disparando um jato de fogo e luz. Aquela bola se movia muito no rápido no céu e enquanto eu me esquivava de estrelas negras que ela atirava, eu procurava Yanko com minha visão intuitiva, mas não o encontrava.


Fui atacado por aquela bola de diversas formas. Ela destruiu o acampamento, muitos servidores foram aprisionados em raízes e alguns morreram estrangulados. Ela disparava uma mistura de fogo e enxofre, estrume, esgoto, raios grossos e poderosos que estampavam nos ares ruídos ensurdecedores. Estava muito difícil lutar contra esta esfera de trevas o que seria de mim quando encontrasse Yanko.


Fugi para ganhar tempo, mas fui pego por uma rede energética nos ares, e caí no chão em alta velocidade. Me feri bastante, mas os poderes elementais em mim combinados ativaram um tipo de cura milagrosa então as dores rapidamente passaram.


Corri pelos bosques sombrios, saltando de árvore em árvore, disparando contra a esfera negra, jatos de água que acertaram-na e a fizeram cair ao chão. Consegui tecer uma rede com a energia do fogo, mas quando lancei sobre a esfera a rede se desfez instantaneamente. Tentei outras artimanhas para destruir a esfera, mas tudo que eu lançava contra ela era ou por ela esquivado ou por ela distorcido de forma que não a atingia.


Voltei em direção ao castelo, voando, e vi Songhü e outros servidores e mestres manietando Damarka, numa tentativa de força com que Yanko se entregasse e aparecesse. Juntei-me ao grupo e fiquei voando acima dele, virando-me rapidamente para todos os lados, pois não sabia por onde Yanko poderia me atacar, temi bastante.


Songhü convenceu Dammarka a confessar seus pecados e pedir perdão perante todos. Ela estava arrependida, pois sofrera todos esses anos calada, amargurada, sem esperança, esta seria a sua primeira oportunidade de redenção.


Quando Yanko percebeu que Dammarka ia se entregar, decidiu matá-la. Entesou o arco e fez uma flecha de puras trevas. Foi quando a esfera se abriu, desnudando-se em transparente e o meu arqui-inimigo despontou de dentro da esfera, de frente para mim, com a mira apontada nela.


- Príncipe Kyom? É o Príncipe Kyom, gente! – gritei para os servidores, que responderam:


- Olhem, o Príncipe Kyom é o senhor das trevas.


E Yanko disparou a flecha. Instintivamente eu me teletransportei, tudo ficou em câmera lenta Flashes de luzes passaram ao meu redor na velocidade da luz, com o esplendor de raios rasgando os céus, porém silenciosos.


Vi minha família, vi a minha casa, vi meus pais, vi meus irmãos, vi minha fraqueza humana, vi as humilhações que eu passava na escola, vi a ilha de Pituã, vi Wolnyar, vi as primeiras cenas de quando lá cheguei, vi o presente, vi o passado e vi o futuro, tudo ao mesmo tempo neste mesmo instante em que minhas mãos já não encontram mais forças para escrever. Vi Songhü, vi a Princesa Kalai, e vi o Príncipe Kyom, este revelando ser, na verdade, meu inimigo a quem eu fui incumbido de derrotar. Vi Dammarka, sua cara de espanto, vi o temor, o pavor em seu rosto, via a morte dela, que com a minha própria vida evitei.


Encontrei-me no exato instante na distância mínima entre a flecha e Dammarka, recebendo eu o disparo fatal que de tão forte e negativo rompeu minha armadura de couro de crocodilo, perfurou meu pulmão e eu caí como morto. Senti todas as dores do mundo quando ela fincou em mim bem perto do coração. Vi o ódio, via a morte, vi a dor de todos os que estavam sofrendo desde o momento em que Unnikav foi dividida e as trevas tomaram conta do Reino de Shawn. Vi a natureza se degradando, o sol escurecendo, a vegetação secando, o gado morrendo.


E trovões e relâmpagos abalaram os céus. Vi minha vista perdendo a cor, vi tudo ficar negro e eu fiquei inconsciente, como morto, ao chão. Ouvi uma gargalhada infernal:


- HAHAHAHAHAH! Este é o vosso Yahleroi? Que está morto? HAHAHAHAH!


- Príncipe Kyom, como você pôde? – perguntou Songhü.


- Kyom? Quem é Kyom? Eu não conheço nenhum Kyom. Há porventura algum pergaminho com meu rosto?


- Sim, há! Respondeu Songhü. E com a energia do faz fez com que o rosto do Príncipe Kyom se projetasse nos ares, como um holograma em tons pasteis, a vista de todos. E completou: Príncipe Kyom, filho do Rei Grammer, nomeado Príncipe e Governador de Keotai, aos treze anos de idade.


- AAAAAHHH – gritou lastimando, Dammarka. E continuou: - Kyoooooooom, é meu filho! – e chorou amargamento, perdendo em si as forças e prostrando-se ao chão de joelhos. Observou o holograma e viu como o Príncipe tinha puxado seus olhos, sobrancelhas e boca. – Kyoooom, Kyom, Kyom, é meu filho. E você, Yanko, é irmão gêmeo dele!


- Oooooh! – todos fizeram um ar e caras de espanto, Songhü então, nem se fala.


- Voce, Yanko, é meu filho! – e chorou abraçando Gabriel. E Disse: Yahleroi, me perdoa!


- Não! – gritou Yanko – Não pode ser! – disse, aproximando-se um pouco de Dammarka que abraçava meu corpo – Sua Vadia! Você me negou esse tempo todo!


E lançou outra flecha negra contra ela, mas Songhü e os outros alto-sacerdotes conseguiram bloqueá-la. Assim também Yanko tentou enviar outras formas energéticas para tentar tirar a vida de Dammarka, que na verdade era sua mãe, mas sem sucesso também.


- Não Yanko, não faça isto! Eu nem te vi crescer, nunca tinha visto a tua face – afirmou Dammarka – Você é o meu filho, a quem dei o nome de Shawn!


- E o que aconteceu para eu crescer sozinho, alimentado pelos demônios no alto das Montanhas Centrais na cidade de Ialketal?


- Ialketal era o único templo do fogo, onde quando você ainda era bebê, eu te abandonei, me perdoa!


- Sua vadia! – e tornou a disparar contra ela, mas o grupo de sacerdotes estava forte, mesmo com Gabriel inconsciente, nenhuma flecha, chicote, golpe ou lancores alcançaram-na. Ficaram parados no ar. Dammarka, arrependida, abraçava meu corpo inerte e molenga, chorava copiosamente.


De olhos fechados, temendo a morte, me abraçou forte e disse:


- Estou tão arrependida! Me perdoa, Deus, pelo que eu fiz, eu matei meu marido e abandonei meus filhos, por ciúmes! Me perdoa Yahleroi, me perdoooooaaaaa! – e chorava bastante, ao ponto de soluçar.


Daí que o chão começou a tremer. Os trovões voltaram a rugir e começou a chover uma chuva torrencial e intensa, de gotas mui grossas. Esta chuva lavou as paredes do castelo, jogando aquelas trevas por terra abaixo. Yanko voltou a se proteger em sua esfera negra e a revestiu de rochas.


Os céus nebulosos se abriram e a luz do sol entrou, indo de encontro ao meu corpo. As gotas de chuva, iluminadas pelos raios solares passaram a brilhar como pequenas lâmpadas de led e onde caíam na grama a fazia reverdejar instantaneamente.


Muitos outros servidores foram chegando, não entendo o que estava acontecendo, mas podiam perceber que havia algo errado pois mesmo a distância minha roupa laranja e roxa se destacava no meio da vasto campo aberto a frente do castelo, mas ninguém ousou me tirar do colo de Dammarka. Suas lágrimas molharam meu rosto.


Formou-se então um redemoinho de gotas brilhantes ao meu redor e estas foram se tornando em gotas de luz, adentrando em meu corpo e também na flecha. Meu corpo levitou a cerca de um metro de altura, deitado, enquanto muitas outras milhares de gotas vinham ao meu encontro. A flecha foi transmutada em uma espada brilhante e meu corpo em um resplandecente ser de luz, empunhando a espada com a lâmina para baixo e a mesma se tornou um cetro em minhas mãos.


Meus olhos brilharam, minhas mãos também. Meus pés reluziram como bronze polido de duas poderosas asas se abriram em minhas costas. Com o estender das minhas mão fiz tudo ao meu redor reverdecer. As gramas voltaram a viver, as árvores mortas das florestas voltaram rapidamente a ter folhas e em seguida flores e também frutos. Restaurei o castelo ao seu estado original instantaneamente, liberei curas milagrosas para os servidores feridos, fiz chover abundantemente.


Yanko tentou me atacar de todas as formas, mas eu fui tornado em um ser tão poderoso, que com um simples gesto de dedos fiz todos seus ataques serem anulados nos ares. Com o movimento das mãos de como quem abre um abacate em duas partes, assim fendi a crosta da esfera em que Yanko se escondia.


Me aproximei voando da esfera e posicionei minha mão esquerda atrás da minha orelha e estendi minha mão direita em direção a esfera que agora estava fendida em duas partes. Raios luminosos maravilhosos com todas as cores que você imaginar saíram de mim com a potência de um laser e a esfera de desfez sob a forma de diversos montros, demônios, serpentes, escorpiões, vermes, larvas, corvos e morcegos que batiam em retirada por um vórtex que se abriu nos céus atrás de Yanko, que ia para fora do planeta para trás da segunda lua, para uma dimensão do espaço-tempo qual eu nem podia entender, retornaram para seus lagos de fogo e enxofre onde gritam atormentados dizendo:


- Arde, consome, o fogo queima sem parar!


Aproximei-me de Yanko e o tomei pela mão direita através de laços de amor. Neste instante ele entrou em um tipo de convulsão, tremendo seu corpo freneticamente nos ares, vomitando bastante um orgone negro que era sugado de igual modo para o vórtex, junto com fezes e urina, pois tudo isso lhe sucedeu instantaneamente. Intercalei luzes de cura e de gloria, lançando-as contra ele de forma a deixa-lo limpo e purificado. E as energias dos quatro elementos fizeram o serviço restante de restauração dele.


Ainda o segurando nos ares com a mão direita, estendi a mão esquerda para Dammarka e lha restituí a saúde. Ela, chorando mais ainda, também vomitou algo estranho, fétido, porém com cor de vermelho sangue. A limpei, a restaurei, a perdoei, lavei energeticamente seus cabelos que voltaram a um tom vermelho acastanhado com um cacheado muito lindo e empoderador. Com breves gestos removi todos seus anéis, pulseiras, cordões e apetrechos de magia negra que utilizava e materializei tudo novo, de ouro e pedras preciosas, para lha ornamentar.


Trouxe Yanko, ou melhor, Shawn, para o meu colo, como um pai pega uma criança deitada em seus braços. Ele estava magérrimo, dedos esguios, olhos esbugalhados, fundos e com um roxo tão profundo quanto seus lábios inchados. Então eu beijei suas bochechas, beijei sua testa e por fim o beijei nos lábios, soprando nele a Chama Divina e o Fôlego da Vida. Seu semblante mudou consideravelmente, de um pálido esverdeado para um tom bronzeado, seus cabelos também se desembaraçaram e viraram vários dreadlocks trançados, em um processo que durou cerca de meia hora. O entreguei a sua mãe, que o abraçou do mesmo modo como havia feito comigo. Então uma voz disse através de mim:


- Não se chamará mais Yanko, nem tampouco Shawn. Mas se Yanko significa maldito, agora se chamará Elyan, ou seja: Filho da Luz.


Então me levantei aos altos céus, e girando com os braços estendidos para baixo, restaurei muitas coisas instantaneamente.


Enquanto mãe e filho se abraçavam, a luz do sol irrompia mais ainda dentro de mim. Fui até o acampamento do hospital de campanha criado para os habitantes daquele continente e curei a todos instantaneamente. Revigorei de igual modo todas as plantas até eu chegar no tal acampamento, ressuscitei todos os animais mortos, todos os ossos espalhados voltaram a ter vida, carne, órgãos, pele e sistema nervoso central, e ainda o fôlego da vida, que permite com que todas as células orgânicas funcionem devidamente e sem o qual nenhuma célula orgânica poderá viver muito tempo em condições artificiais.


Ativei os servidores ao máximo de suas capacidades, todos os cristais brilhavam intensamente e flutuavam presos em seus pescoços, direcionados a mim, como se quisessem vir ao meu encontro. Então eu vi que vários servidores foram incendiados com a chama divina, tenho a forte impressão que eu multipliquei meu dom do fogo com vários deles, senão todos.


Jatos de todas as cores irrompiam de todos os cristais dos servidores e eu pude ver de cima vários arco-íris em todas as dimensões do espaço-tempo. Sentia em mim todas as árvores, todos os rios, todos os estuários, todos os peixes, animais rastejantes, quadrúpedes e aves dos céus. Tudo foi quase que instantaneamente revigorado, mas eu lembro que toda a energia necessária para tal fluiu por mim, eu girava no ar de braços abertos, empunhando o cetro com a mão direita e muitos jatos de luz jorravam de mim para todos os lados. Foi muito forte e preciso. Não houve sequer um animal morto que não ressuscitasse, nem sequer um pedaço de osso que não voltasse a ter vida. Todos os rios foram despoluídos e descontaminados, em um trabalho de cura energética que durou cerca de 3 horas, enquanto eu dançava, bailava e vários dos servidores acompanhavam minha dança e multipl

icavam meu dom.


Anjos celestiais cantavam canções celestiais, afirmando:


- Aleluia! Pois já o Todo Poderoso Reina!