CAPÍTULO 15 – 1º de Shalom.
Em todo o reino as pessoas foram treinadas, sabendo cada qual sua posição. Os que ficariam para segurança do reino, os que sairiam para os barcos, todos esperando as ordens finais, que só foram repassadas no dia anterior à nossa partida e foram enviadas a cada um através de pergaminhos, que não poderiam ser lidos em voz alta, pois tínhamos receio de que Yanko pudesse ouvir de alguma forma e se preparar para frustrar nossos planos.
Viajamos em carruagens para a cidade de Kenty, pois esta ficava na margem oeste XXX beirando o Estuário da Paz, na porção mais próxima do Reino de Shawn.
Em 1º de Shalom saímos todos os cinquenta barcos, com a benção dos Príncipes Kalai e Kyom. Foram quatro dias de viagens. Fomos de vagar, prestando bastante atenção a tudo, sem muita velocidade e em boa navegabilidade. Nossa alimentação era a base de carnes defumadas, algas, queijos e sucos amargosos. No final do quarto dia vimos a cortina de fumaça que circundava o continente. Esperamos dois dias e adentramos.
A fumaça era asfixiante, podre, fedorenta a beça, com cheiro de carniça, muitos de nós vomitávamos. Nada parava em nossos estômagos e quando não tínhamos mais o que vomitar ainda assim continuávamos com ânsia como quem vai vomitar, e a barriga dói de contrações porém nada sai. Foram dias muito difíceis.
As águas eram marrons, infestadas de peixes mortos, boiando, de vez em quando enormes bolhas subiam da água, expelindo um gás que pegava fogo ao encontrar a superfície. Tenebroso.
As vezes conseguíamos aliviar com nossos poderes deixar o ar mais puro enquanto os barcos avançavam lentamente. Um ou outro barco foi atacado por monstros marinhos gigantes como baleias mas eram combatidos com energia e flechas mortais.
Foi terrível ver também corpos boiando, pessoas mortas. Lutamos contra tempestades de raios e ondas gigantes. Tivemos algumas perdas de barcos e alguns homens morreram afogados. Um dos sacerdotes teve a ideia de lançarmos ofertas pacíficas aos mares e isso em muito nos ajudou.
Corvos e morcegos eram combatidos energeticamente por garças e águias energéticas que saíram de nossos cristais, tomavam forma e nos escoltavam. Songhü me disse que nunca tinha visto formas como aquelas.
No oitavo dia, avistamos as grandes Montanhas Centrais, rocha escalvada e alta, e muitos bancos de corais protegendo a costa de forma que tivermos que contornar as rochas para nos aproximarmos, pois não estávamos conseguindo manipular as águas do mar para que nos transportassem por cima e nos levassem até a terra firme.
Alguns barcos foram atingidos e destruídos por colunas de pedra que surgiam com muita força e velocidade, muito possivelmente manipulados por Yanko.
Continuamos contornando pelo sul passando pelos mesmos tipos de revés. Tempestades, raios, ondas gigantes, ataque de animais, colunas de rochas emergentes e perdemos até então quatorze embarcações, meio que superlotando as restantes. Perdemos muito suprimento de água e alimentos. Nossos homens passaram a sofrer de diarreia e nosso estoque de água doce começou a acabar rapidamente, pois para evitar a desidratação dos nossos tripulantes tivemos de dobrar a quantidade de água consumida e nossos alimentos eram todos secos, com pouca taxa de líquido.
Certo e constante pavor nos assombrava, figuras da morte, assombrações, fantasmas andando sobre as águas eram frequentemente vistos, vozes, crianças chorando, pessoas gritando de dores, bolas de fogo que surgiam das águas.
No décimo dia chegamos à praia de Richies. Quando descemos do barco fomos massivamente atacados por enguias elétricas que causaram muitas queimaduras e prejuízos aos nossos soldados que desceram nos primeiros barcos. Tivemos que reembarcar e levar os barcos até a ponta das areias somente lá foi que conseguimos formar ondas para nos deixar a todos nós em terra firme. Por causa dos reveses nas águas decidimos que todo o grupo se manteria junto e os barcos restantes foram todos arpoados em terra firme.
Compreendemos que lá o mal poderia vir por todos os lados e aprendemos esta nova forma de batalha espiritual: através de animais energéticos.
Conseguimos formar vários leões que nos serviram de guarda, especialmente contra cães selvagens tão ou mais covardes quanto as hienas africanas. Águias de fogo faziam nossa escolta nos céus.
O solo era lamacento, difícil de andar. Muitos de nós estávamos fracos por causa da desidratação. Foi difícil prosseguir e era muito difícil manipular os elementos da forma correta. Alguns servidores tiveram seus pés petrificados quando tentamos formar um pavimento sólido rochoso para andarmos. Mas conseguimos lutar com bastante êxito contra ventanias, trombas d´agua e chuvas ácidas.
Quando a terra se tornou firmes vimos muitas luzes vindos de uma cidade mais acima. Estávamos nos aproximando da capital Lieches. Chegamos então na parte mais dramática da incursão. Os gritos e vozes de pedido desesperados por ajuda se tornaram maiores e de repente uma multidão de pessoas semimortas, como os zumbis dos filmes se aproximou de nós. Puxamos as espadas e íamos começar a disparar flechas, quando um servidor grito:
- Não atirem! Não atirem! São seres humanos. São nossos irmãos.
Então percebemos que aqueles zumbis eram, na verdade, pessoas doentes, magras, esfomeadas, fracas, sem capacidade de erguer nem sequer um saco de dez kilos, gritando: Socorro, Arde! Está doendo! Estamos com fome, estamos com Sede!
Montamos então acampamento e formamos vários leitos no chão. Montamos barracas, separamos equipamentos, e ocupamos os servidores, sacerdotes e soldados para ajudar aquelas pessoas. Estamos atentos, receamos até que fossem inimigos disfarçados, mas não. Não esboçaram nenhuma reação contrária. Muitos estavam extremamente magros, outros muitos também estavam nus, outros ainda sem pés, sem mãos, sem olhos, amputados, descabelados, sujos, fedidos.
Era de partir o coração. Crianças, jovens adultos e idosos daquela forma.
Não estávamos conseguindo tratar água então tivemos que voltar para buscar os tonéis de água restante nos barcos. Não seria possível levar esse batalhão de pessoas para Grammer para serem tratadas lá. Mas conseguimos dessedentar a muitos, alimentá-los também, cobrir os que estavam sem roupa e dar-lhes um mínimo de alívio sobre seu sofrimento.
Shawn se tornou um império das trevas e Yanko o Príncice das postestades daqueles ares. As florestas estavam queimadas a fogo, os rios foram contaminados, as hortas destruídas, pântanos e charcos estavam nos lugares das antigas planícies. O gado morreu ou atolada ou de fome ou de sede, a terra tornou-se seca e sem vida, todas as plantas amareladas pela falta de sol e água, o ambiente era infestado de serpentes, moscas e escorpiões tamanho desequilíbrio ambiental que assolou aquele continente.
Separamos provisões para um grupo menor ainda de soldados, servidores e sacerdotes e avançamos com a intenção de atravessarmos a cidade de Lieches. Com o tempo entendemos algumas alterações nas nossas formas de oficiar o sacerdócio para conseguir manipular os elementos corretamente, então conseguimos ter bons resultados manipulando o ar e depois as águas. Então Yanko tentou nos afetar de outra forma: através de raízes que brotavam do solo e prendiam nossas pernas, ou através de chuvas de granizo, enviando serpentes malditas que foram perseguidas pelas nossas águias energéticas. O bagulho foi doido! Quando entrávamos em uma estrada, tínhamos a sensação de que estávamos andando em círculos. Então construímos uma espécie de balão gigante e o fizemos flutuar com o poder do fogo e do ar combinados. E assim pudemos ver, ao longe, o antigo Castelo do rei Kligüer onde possivelmente Dammarka estava com seu filho Shanw e também com Yanko.
Cercamos o castelo por dois dias montando um grande acampamento ao seu redor e então gritamos várias vezes, mas sem resposta:
- Yanko você está cercado! Entregue-se!
