CAPÍTULO 11 – 07 de Shamah
Ficamos hospedados em quartos separados altamente luxuosos, com fino acabamento. Pé direito triplo, janelas esguias e altas, cortinões de lã bordados, tão grossos quanto tapetes. Lustres e luminárias aromatizados, aromatizadores e incensários espalhados. Enormes tapetes cobriam todo o chão dos quartos como também de todo o Palácio. Songhü tinha levado sua cítara e a deixou energizada na janela, fazendo com que pequenas correntes de ar a tocasse sozinha. Dormimos ao som de cítara e acordamos ao som de trombetas, nossa tomei um susto!
Servidores trouxeram-nos um mini banquete com comidas típicas do Reino. Tubinhos de alga com peixe, frutas e salsão, sopa de ervas meio amargas com carne salgada. Lembro de ter feito até uma cara feia na hora que experimentei a sopa, mas fui bem interpretado pelo meu mestre Songhü.
- Vai te fortalecer. São alimentos fortes.
Nos preparamos e descemos. No saguão principal estavam os dois príncipes irmãos, quatro conselheiros reais, os outros dois alto-mestres Suaruna e Aghuito e mais outros treze mestres vindos de todo o reino, sem contar os muitos servidores prontos para nos atender como garçons que esperam o chamar de seus fregueses, todos de pé, juntos às bandeiras hasteadas como cortinas nas paredes.
- Bom dia a todxs – abriu o Príncipe Kyom nossa reunião – sejam bem vindxs. Agradecemos a presença de todxs vocês que hoje se reúnem nesta assembleia extraordinária do Alto Conselho Real, sendo a pauta de hoje a seleção do aparato militar e as estratégias de invasão à Shawn e consequente enfrentamento das terríveis forças demoníacas que lá imperam. Com a sua palavra, o excelentíssimo Primeiro Ministro da Guerra, assim excepcionalmente nomeado para esta necessidade, senhor Roner Eitan.
- Bom dia a todos e todas. Bom dia Princesa Kalai, que gentilmente nos empresta seu palácio e residência para esta tão importante e urgente reunião. Príncipe Kyom, todos os alto-mestres, nossos representantes legítimos, eleitos pelo nosso Deus Yah, servidores testemunhas e nosso amado e tão esperado Yahleroi XXX, Gabriel, estamos reunidos para discutir as estratégias para esta épica guerra que estamos por enfrentar. Temos um inimigo, identificado como Yanko, um alto-sacerdote, fruto das maldições advindas ao reino do falecido Kligüer, já que cometeu aquele desativo passional, que culminou com a morte de nosso glorioso rei Grammer. Há algums meses, como muitos aqui sabemos, celaramos guerra ao reino de Shawn, mas não tivemos resultados positivos. Tivemos grande dificuldade em aportar em terra e quando conseguimos não obtivemos bom êxito, já que os esgotos, podridão, ataques de monstros, feras e demônio provocaram a baixa de oitenta soldados, e se não recuássemos poderia ter sido pior. Atualmente temos quatro mil servidores bem treinados para guerra, destros em armas como espadas, lanças, arcos e muitos deles manipulam bem os elementos, especialmente quando trabalham sincronizados. Temos alguns bons mapas do mundo antigo e uma perspectiva de como este reino caído deve ser geograficamente. Precisamos traçar novas estratégias, mas eu passo a palavra para nosso tão esperado Yahleroi para que ele nos diga o que fazer!
- Contesto! – Interpelou Songhü –Gabriel não está aqui há nem uma lua sequer e não tem condições de responder a um questionamento como este.
- Contestação aceita – respondeu a Princesa Kalai.
Abriu-se então a deixa e vários comentários e burburinhos encheram o salão. Não, eu fiquei, sem ter onde enfiar o rosto, tamanha vergonha. Por outro lado, Songhü estava certo! Eu não sabia o que fazer, não tinha nenhum treinamento de primeiros socorros, que dirá treinamento militar! Eu também não tinha força física, era magricelo só sabia consertar computadores o máximo que eu pude fazer foi manter a calma. Mas uma coisa eu tinha em mim, lembrei agora, que se chama FÉ. Sim, Fé eu tinha! Eu tinha Fé. E de novo, fé. É uma coisa que eu realmente tinha dentro de mim, ainda que não tivesse a mínima ideia de como seria esta batalha, mas se eu era escolhido para aquilo, então eu tinha algo a meu favor. Aquela deixa pra mim transformou-se em afronta e se tem algo que eu não gosto é de ser contrariado. Já não bastava apanhar na escola e ser perseguido na rua, poxa até em Wolnyar eu seria motivo de piada? Não consegui conter as lágrimas e a Princesa Kalai interrompeu o bafafá para me dar a palavra:
- Você tem algo a dizer, Gabriel?
- Sim, tenho. – e o silêncio tomou conta do salão – Eu sou um jovem rapaz. Não nasci neste planeta mas acho legal tudo que estou passando aqui.
- Voce acha legal o que estamos passando? – fui interrompido por alguém.
- Olha –retornei – vocês não me conhecem e não conheço a nenhum de vocês. Eu sei que posso não ter as qualificações militares ou de domínio elemental que vocês querem ou esperam mas de uma coisa sei: a minha vida inteira sonhei com estes momentos em que estamos vivendo. Talvez tanto quanto vocês ou mais eu fui atormentado em sonhos, tendo pesadelos, sonhando com Wolnyar, com o Reino de Grammer, com Shawn, com Songhü. Quando eu era criança eu brincava de manipular e dominar elementos. É algo que está dentro de mim e se tem algo que eu tenho é FÉ! Eu tenho fé e convicção de que vamos ser vitoriosos. As vezes queremos controlar tudo temendo não alcançar os resultados esperados. Mas quando estamos na direção de Deus, tudo dá certo. Tudo é possível ao que crê, e eu tenho fé. Podemos traçar novas estratégias, vamos lutar, vamos guerrear, mas esse negócio não é só nosso! Esta guerra é do Senhor! Essa guerra é de Deus e é no poder do Seu nome que VAMOS VENCER!
Ao concluir minhas palavras um servidor tocou uma trombeta, em sinal de aprovação e muitos se levantaram para aplaudir.
- Junte-se a isso, o Gabriel demonstrou sua capacidade ontem, enquanto vínhamos de balsa. Enfrentamos um monstro, uma serpente marinha enorme qual anaconda e depois disso o Gabriel exultou em força. Demonstrou habilidades com os quatro elementos. Precisamos é investir nele, acreditar com ele, treiná-lo e, juntos, inspirá-lo a ter esperança, força e coragem para entrarmos lá e seja o que Deus quiser. Nos vamos lutar mas é no nome de Yah é que vamos vencer! – Arguiu, positivamente, o mestre Suaruna.
Aghuito XXX pediu a palavra e disse:
- Eu concordo que Gabriel receba treinamentos militares. Alguém mais? E novamente várias pessoas falaram ao mesmo tempo, eles discutindo o que haveriam de fazer comigo. Eu também concordava: treino militar, arte da luta, estou dentro! Ia parar de apanhar na escola quando voltasse para casa.
- E as incursões? O que vamos fazer? – alguém perguntou ao Primeiro Ministro, que respondeu:
- Temos que votar. Podemos enviar os quatro mil em um só grupo, ou em dois destacamentos de dois mil cada, podemos enviar somente dois mil e deixarmos outros dois mil na retaguarda.
- Você é o Primeiro Ministro e o que você decidir faremos, mas decida por nós! – alguém o interrompeu, dizendo.
E assim seguiu nossa reunião: diversas formas de invadir foram debatidas, tipos de treinamento que era preciso, armas, ferramentas, métodos de ataque, enfim.
Fiquei cerca de duas semanas no Palácio da Princesa Kalai e outras duas semanas no Palácio do Príncipe Kyom, a seu convite. Eu e Songhü seguíamos inseparáveis, sendo treinados todos os dias fazendo meditações, jejuns, orações, preces, rituais, danças, movimentos, exercícios, corrida. Agora acrescentam-se artes marciais, musculação, manuseio de armas: espada, bastão, lança, escudo, arco-e-flecha. Eu ficava exausto. Começávamos no nascer do sol e íamos até a segunda metade do dia, quando o sol começava a esfriar e então almoçávamos e ficávamos livres para voltar a meditar. Mas praticamente quando anoitecia eu me recolhia e ia dormir. Nos primeiros dias senti muitas dores musculares, mas fui acostumando.
Passeamos de charrete pelas duas cidades irmãs. Conheci parques, aquedutos, piscinas públicas, estações de tratamento de esgoto, hortas comunitárias, grandes mercados de trocas, torres de vigília e adoração, templos dos elementos. Nestes, em especial, tive experiências maravilhosas. Fui envolvo pelas energias, minhas roupas e armaduras de couro de jacaré mudavam de cor, fui tomado por visões. Vi símbolos, desenhos, estórias, contos, muita coisa dentro de mim foi revista, nos pensamentos, sentimentos e forma de ver o mundo. Passei a ver a vida como uma grande dádiva da existência, que Deus é tudo em todos e cuida maravilhosamente de suas criaturas. Ainda que muitas delas venham a sofrer em algum momento de suas existências, todas as coisas colaboram para o bem, no fim de tudo o Senhor enxugará de todos os olhos as lágrimas e o fim de todas as coisas é estar e viver permanentemente na Sua presença em adoração junto com anjos, assim aprendi nas visões, que são chamados de Serafins, que declaram
sua Santidade, dizendo: Santo, Santo, Santo!
